terça-feira, 11 de março de 2014
Um novo cenário
Escrito por Juliana Amado às 13:19 0 comentários
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
Rosa
Eu gosto de desenhar, mesmo não sabendo fazê-lo muito bem. Não tem problema. O desenho não é meu ganha-pão. É um passatempo. Uma forma de "carpediar".
Eu gosto de brincar com formas geométricas e corpos em movimento. É o meu forte, eu diria. Se é que posso dizer que tenho algum forte. A minha arte não está muito preocupada com conceitos. Não pretendo ser aceita pela história. Desenho, pinto o que quero, para extravasar o que vem de dentro da minha alma. Para vivenciar o momento. É a minha forma de sentir o presente.
Até que um dia, uma rosa cruzou meu caminho. Ou melhor, o desenho de uma rosa. Porque, como diria Magritte, isso não é uma rosa. Um desenho feito por mim, de maneira simples. Quase um caracol e uma folha. Era bonitinho, não nego, mas bem simples. Ou minimalista, nas palavras de quem me pediu para desenhar.
Recebi elogios. Mas um deles, feito dias depois, me marcou. Talvez pelo fato de ser inesperado, não sabia que alguém ainda se lembrava do desenho. Talvez por estar imbuído de carinho. Talvez, talvez... bah. Essa palavra tem sido muito frequente na minha vida ultimamente.
Depois disso, desenhar uma rosa passou a ser muito mais que "carpediar". Passou a ser a certeza de que um sorriso brotaria dos meus lábios enquanto desenhasse.
Escrito por Juliana Amado às 16:50 0 comentários
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Dia de primavera
Tamara chegou um pouco mais cedo do que previra. Sabia que teria que esperar. Mas, mesmo sendo impaciente, não se importou. No ponto de ônibus tinha lugar para sentar. Em frente tinha uma floricultura. Via o colorido e sentia o aroma.
Porque resmungar a si mesma, por ter calculado mal o tempo? Estava um delicioso dia de primavera. Com sol e a brisa a bater suavemente no rosto e o cabelo a voar.
Porque não aproveitar para sentir o amor que exalava do seu peito? Amor pela vida, pela natureza, pela família e por uma determinada pessoa. Sim, Tamara amava alguém e o tal alguém não sabia.
Mas naquela hora isso não importava. O momento era tão único, ímpar. O amor por tudo simplesmente brotava, sem pedir nada em troca.
As árvores ao redor davam-lhe a sensação de estar nos anos 70. E isso a enchia de mais amor. Amor. Por ela própria, pelo tal alguém, pelas flores, pelo mundo, por tudo.
Escrito por Juliana Amado às 16:48 0 comentários
domingo, 26 de janeiro de 2014
Respostas
Às vezes eu me faço umas perguntas. Cujas respostas poderiam ser um sim ou não. Mas só chego a um talvez. E continuo na dúvida.
Seria bom se eu chegasse a uma resposta definitiva? Poderia mudar minha vida? Poderia. Mas seria do jeito que imagino? A estrada tem tantas curvas. Depois que o carro vira, não o vemos mais. A certeza existe? Ou cada grão de areia é um talvez? A maior parte da vida é um quiçá.
Perguntas, caraminholas.
Perguntas, ponderações.
Perguntas, estudo.
Perguntas, observações.
Perguntas e respostas. Será?
Escrito por Juliana Amado às 16:41 0 comentários
sábado, 25 de janeiro de 2014
Ponta-cabeça
Vendo
eu estou
o mundo
a mudar.
A vida
a girar.
O difícil
aparecer.
Aparecer?
Foi fácil
algum dia?
Testes, provas
a surgirem
de surpresa.
Tempo curto.
Tudo rápido.
A mente gira,
corre,
voa.
Roda gigante
ou montanha-russa?
Ponta-cabeça,
pés pelas mãos.
Medo
de cair
e não levantar.
Mas as pernas
sempre se erguem.
Plantando bananeira,
eu vou.
Escrito por Juliana Amado às 16:35 0 comentários
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Alarme
Cartas na mesa.
Verdade.
Desabafo coletivo.
Ato de ouvir.
Espanto.
Alarme
ou falso alarme?
Dor.
Rebola que vai.
Está na hora do almoço.
Choro.
Prato de comida.
Choro.
Sobremesa.
Dor.
Coração vazio.
Algozes,
eles estão ali na frente.
Com pratos de comida.
Dor.
Sentimento de inutilidade.
Estupidez.
Alarme,
falso alarme.
Que será?
Escrito por Juliana Amado às 16:31 0 comentários
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Serpente
Eu percebi que tinha deixado de ser menina quando tive sonhos diferentes. Que tinham você como um dos personagens.
Tive que ser mulher para saber que não podia te contar o que sonhara. Pelo menos não naquele momento.
Um apartamento. Um mal estar. Uma serpente. O medo. Um colo. Tons pastéis. Azul cintilante.
Fragmentos que vi de olhos fechados, pedaços avulsos que tinham lógica. Suficientes para eu entender o que se passava comigo. Tomara conta de mim um amor quase impossível.
Tive que ser mulher para te amar sem sofrer. Amar apenas desejando o bem.
Amar sonhando e lembrando da serpente azul deslizando no banheiro do apê do sonho.
Escrito por Juliana Amado às 16:28 0 comentários
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Botão Vitória
Outro dia mamãe me deu uma rosa branca. Ela era um botãozinho ainda. Vitória. Foi assim que a nomeei. Vitória, a rosa branca.
Minha bebê tem que crescer forte , assim como todas as crianças, pensei. Para as crianças, as mães dão legumes, verduras, leite, e claro, o tal do Biotônico Fontura que todo mundo tomava nos anos 90, não sei se ainda hoje é assim. Mas para a minha Vitória, eu deveria dar outra coisa. Bem mais simples. Água nova todo santo dia.
Lá fui eu, arrumei um copo de vidro, já que não sei onde fica enfiado o vaso solitário nesta casa. Um copo de cerveja serve para casos de emergência e improviso. Enchi-o até a metade com água, e lá coloquei Vitória.
A cada dia, fui preparando-a para a luta. O botão foi abrindo e eu ia aparando seu caule a cada manhã, para que ganhasse mais força, vitalidade e aguentasse por mais tempo a barra que viria a passar.
Vitória cresceu, amadureceu. Foi levada para o campo de batalha. Sua função era levar um pouco de alegria, de paz, sem se deixar envolver pelas balas e fumaças das trincheiras. Continuou recebendo os cuidados diários da troca da água e do caule aparado. Mas não achei que resistiria tanto tempo, sobretudo para uma rosa. Não é à toa que ela é Vitória.
Hoje faz dez dias que Vitória está comigo. Apresentou os primeiros sinais de velhice. Mas ainda não perdeu a vitalidade. Sim, Vitória ainda vive.
Escrito por Juliana Amado às 16:19 0 comentários
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Um passado que passou e não passou
Há dez anos
eu desaprendi
a sorrir.
Desaprendi
a calma.
Desaprendi
a serenidade.
Desaprendi
as oito horas de sono diário.
Desaprendi
a aprender.
Desaprendi
a viver.
Aprendi
o medo.
Aprendi
a insatisfação constante.
Aprendi
o orgulho ferido.
Aprendi
o sono não dormido.
Passou.
Tudo passou.
A circunstância
não mais existe.
O que veio depois
foram aprendizados
e desaprendizados
inversos.
Mas e as sequelas?
Elas ficam como marca
de um passado
que passou e não passou.
E agora?
O que fazer com as sequelas
dez anos depois?
Eis a questão!
Escrito por Juliana Amado às 00:15 0 comentários
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Buscando meus versos
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Eu confesso.
Preciso perguntar.
Num diálogo comigo mesma.
Perguntar pra mim mesma
praonde foi a minha inspiração literária.
E praonde posso ir
procurá-la.
Pra pegá-la de volta.
Sim.
Porque ela ainda me pertence.
Não, meu filho,
não se anime
engana-se se pensa que pode roubá-la
de mim.
Ela é minha
unicamente minha.
Ainda que esteja perdida
em algum canto por aí.
Não está num lugar
que você possa pegar.
Sei que ela está
no meu cafofo.
Meu cafofo é meu corpo.
Aquele que abriga minhas almas
e nada mais.
Acontece que eu tenho várias almas.
E não sei
onde enfiei a literária.
Mas vou perguntar.
Pra mim.
Conversando comigo mesma.
E minha inspiração
há de voltar.
Opa.
Está voltando.
De onde estaria saindo estes versos?
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Escrito por Juliana Amado às 21:05 0 comentários
terça-feira, 15 de maio de 2012
Resumo de um mergulho na toca do coelho
Numa terra distante para ir de ônibus e perto para ir de avião, eu fui.
Vi o clima mudar. Vi as pessoas mudarem. Vi a cultura mudar. Vi os casacões saírem dos armários. Vi desencontros com expressões idiomáticas. Vi a alegria se fazer presente, a diversão reinar, as gargalhadas tomarem conta e o espírito infantil liberar-se.
O mundo fantástico descortinou-se diante do nosso pequeno grupo. Não éramos mais o nós que a maioria das pessoas conhece. Éramos agora um nós personagem. Um nós muito mais verdadeiramente nós.
Tínhamos entrado na toca do coelho. O exato momento eu não sei precisar. Acho que foi quando nos embarcaram no avião errado. Encontramos um país surrealista, mas nos sentimos em casa. Estivemos com seres aparentemente inexistentes e com uma vaca que transportava passageiros a preço de falsa elite – o vaxi.
Resolvemos visitar a cidade da Lagarta Azul, o lugar dos chocolates de verdade – sem gosto de indústria vagabunda – e para isso tínhamos que pegar um transporte coletivo com passageiros de olhos diferentes dos nossos.
Fomos visitar museus. E descobrimos que não há museus de verdade. Mas nos museus de mentirinha sentimos o prazer do olfato e do paladar – os perfumes e os chocolates. Ali sentimos a harmonia entre nosso lado adulto e o infantil. Éramos mulheres e crianças, crianças e mulheres.
O que me surpreendeu na cidade da Lagarta Azul foi o respeito. Deparamo-nos com seres educados. Ninguém passa por cima de ninguém. Parece algo inexistente, coisa do outro mundo. Opa. Estávamos em outro mundo. Me senti em casa que esqueci desse pequeno detalhe.
Saímos da cidade e fomos transportadas para um museu numa cidade grande. Disseram-nos que era um museu. O que antes despertou o olfato e o paladar, agora despertou o espírito brincalhão. Descobrimos que aprender pode ser divertido. E viramos de ponta-cabeça no girador humano. Pudemos ver o mundo ao contrário.
O lado ruim da toca do coelho é que contos de fada não são vitalícios. Uma hora a própria toca te expele para o mundo real. E você não acorda. Volta. Volta para de onde veio.
Escrito por Juliana Amado às 11:29 0 comentários
domingo, 1 de abril de 2012
Dúvida na chuva
Sair do trabalho num dia de chuva todo mundo faz. Entrar num ônibus com guarda chuva molhado, também. O que eu não sei se alguém já percebeu é que o Humaitá fica mais bonito.
Muito já falaram dos sóis de Ipanema e Copacabana. E da chuva do Humaitá vista de dentro do ônibus, quando você está indo para o Jardim Botânico? Se você já ouviu, me conta. Eu nunca ouvi. Não ouvi, mas vi. Vi e senti. O tal ar que não se respira, se vê. A tal música que não toca, se apresenta. O meu paraíso de construção artística.
Nunca tinha pensado nisso, mas gostaria de ter dois ateliês. Um em Ipanema pros dias de sol. Outro no Humaitá pros dias de chuva.
Quero descer do ônibus e comprar pão quentinho naquela padaria que está com o chão molhado. O tal chão quadriculado azul e branco, cujo branco já está amarronzado pelos sapatos molhados e sujos que se movimentam num constante entra e sai. Olhando de longe, tudo me parece um espetáculo de sapateado nos palcos do teatro Villa Lobos antes de ser lambido pelo fogo.
Minha mente começa a fazer um emaranhado com a cena do Humaitá em dia de chuva. Minha criatividade mistura as artes cênicas com as visuais. Não sei se escrevo um roteiro para um musical, se produzo videoarte, se pinto uma tela a la eu mesma, se faço uma foto (quisera eu estar com minha câmera aqui, mas celular sempre resolve em casos de emergência).
O sinal abriu. O ônibus andou. De repente, perdi a oportunidade. Quem mandou pensar muito?
Escrito por Juliana Amado às 22:20 4 comentários
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Acorde, fale, descubra!
Ela acordou. Descobriu que se tratava de um quadro. Harmonia em Vermelho, de Henri Matisse. E que a roupa era do início do século vinte.
Estivera sonhando.
Escrito por Juliana Amado às 15:06 0 comentários
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
O choro e a canseira
Numa tarde de terça feira, João estava cansado. Sem ânimo para trabalhar, e o computador em nada ajudava. Olhar para o monitor dá mais sono e suga as últimas energias que ele tem. As últimas, porque as primeiras foram consumidas pelo mau momento e pelo choro. Quem foi que disse que homem não chora? Não foi assim que a mãe de João o educou. Ele aprendeu a se expressar, pelo menos consigo mesmo. Aprendeu que ser humano sente. Coisas boas e más. Que todos os sentimentos passam. E que os ruins têm que se extravasados, para que não se acumulem, feito poças de água suja.
Um acontecimento recente mudaria toda a vida de João no ano seguinte. Em termos práticos e emocionais. Ele teria que aprender a lidar com a frustração provocada por uma circunstância. E como estava sendo doloroso! Queria deitar-se na cama e chorar copiosamente, até esgotar toda a porcentagem da água que tem no organismo. Não, ele não queria morrer. João gosta da vida. Mas queria que o tempo parasse. Não que ele tenha medo de mudanças, longe disso. Acontece que abriria mão compulsoriamente justo da última coisa que escolheria para não fazer mais parte do seu presente.
João estava trabalhando no automático. Porque é responsável e tem um tal de correio que sempre faz com que tenha contas a pagar. Mas ele sabia que não estava sendo honesto com o chefe nem consigo mesmo. Sabia que o trabalho não estava rendendo. Cochilava no computador sem perceber. As noites de sono vinham sendo prejudicadas pela combinação de lágrimas e soluços. Aí está a grande desvantagem de trabalhar em escritório: alimenta o sono. Inviável não dormir depois de horas sentado. João dorme sentado, de cabeça em pé. O chefe vê, a secretária vê. Fazem vista grossa. Todo mundo tem direito a um mau momento, eles devem saber. Mas também não perguntam o que houve. João é muito na dele, não diria de qualquer forma. Resta-lhes estão, não importuná-lo em seu sono de trabalho. Sabem que o serviço será finalizado antes do prazo, custe o que custar para o pobrezinho.
O céu se fechou e armou o temporal. O barulho forte das gotas violentas a bater na janela, acordou João. Ele olhou, ainda assustado, para fora e sorriu. Parecia que a chuva compactuava de seus sentimentos.
Escrito por Juliana Amado às 22:09 0 comentários
domingo, 20 de novembro de 2011
Crítica ao crítico
Entre o mar e a montanha. Lá mora Daniel. Num bairro sem saída. Na Urca. O lugar pode ter seus problemas, mas Daniel não troca por nenhum outro. No meio de uma metrópole barulhenta; cheia de engarrafamento, motoristas histéricos buzinando; pivetes nas ruas; pessoas correndo apressadas, sempre atrasadas; ele é um privilegiado. Sente os prazeres de uma cidade bucólica e interiorana. Poucos ônibus,ruas relativamente vazias, pessoas passeando; cercado pelo exército e pela marinha, não tem medo de ser importunado por uma marginalzinho adolescente enquanto faz suas diárias corridas no Caminho do Bem-te-vi.
Daniel é do tipo que gosta de uma meditação, de abraçar árvores, sentir o cheiro da terra, ouvir ondas a baterem nas pedras, pisar na areia, trocar energias com a água, acender um incenso.
É um autônomo, trabalha em casa. Mas busca o conhecimento e a inspiração lá fora. É um cronista. Escreve sobre o que lhe fala o coração. Gosta muito de escrever sobre críticos de arte. Olha que ousadia! Critica os críticos. Não se sabe se antes alguém pensou em fazê-lo de forma polida. Daniel não agride. Ele constrói. Como muitas críticas. Ele se pergunta como esse ou aquele crítico chegou a uma determinada conclusão e porque. Os mais famosos não escapam. Ferreira Gullar, Fernando Cocchiarale, Mário Pedrosa, Moacyr dos Anjos já foram alvo de suas análises. E ninguém pode reclamar. Daniel é historiador da arte, estuda a fundo e entende do assunto. Sempre afirma que a arte não é uma ciência exata. Cada qual interpreta uma obra como bem entender. E Daniel é gentil. Gentil, mas com textos bem redigidos.
Bem redigidos na paz da Urca, após uma corrida e um banho gostoso.
Escrito por Juliana Amado às 22:49 0 comentários
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Nunca de frente
Enquanto a vida brinca, eu a vejo brincar. São poucas as vezes que entro no joguinho. É tão difícil jogar, brincar, sem se machucar. Sem se deixar afetar. Poucos são aqueles que conseguem fugir de um tapa ou um empurrão num jogo. E qualquer dessas coisas dói. Por isso, assisto de camarote.
Assisto as diversões. As canseiras. Os altos e baixos. Ânimo e desânimo. Medo e valentia. Luta e clamor. Eles têm um ideal. O ideal deles me atinge.
Eu não devia ser covarde. Não devia. Mas é tão difícil escolher o caminho mais difícil. Tão difícil olhar olho no olho. No olho da vida. Lá dentro das pupilas. Estremeço-me. Penso nas possíveis consequencias. Olho para o meio. O fim me é inalcançável. O resultado pode ser bom. Eles acreditam nisso. Mas eu não entro na briga.
- Joana. - Alguém me chamou.
- Oi?
- Venha.
- Praonde?
- Para o campo. Vamos jogar queimado.
- Não, obrigada.
- Tem medo, é?
- Não.
- Não?! Tem certeza? Se tem medo é melhor assumir. Ou tem medo de ter medo?
- N...n...
- Ah, Joana. Quer ficar aí, fique.
E virou as costas.
Mas eu a ouvi murmurar para si:
- Eu tenho vergonha alheia.
Escrito por Juliana Amado às 23:24 2 comentários
domingo, 11 de setembro de 2011
Carrega-se nas costas
Fazia vinte dias. Desde que ele fora embora e a deixara sozinha com o cachorro que resolvera deixar para trás no último minuto. Não sabia o que pensar do bicho. Era a personificação de uma lembrança. Era também uma companhia.
Não via as amigas. Não via a família. Não via lá fora. Na cidade há gente conhecida demais. Não queria ver conhecidos. Porque eles sempre fazem perguntas. Não queria respondê-las. Não queria encontrar respostas. Evitava, então, indagações.
Dormia várias horas ao dia. Para espantar a memória. Dentro de casa há muitas lembranças. Cada objeto tem uma história. Que remete a ele. O ingrato que foi embora pouco menos de um mês atrás. Que pegou uma mala pequena, sem rodinha, disse que ia viajar, sumiu do mapa e até agora não voltou.
E pensar que ela lhe ofereceu um teto, pagou suas contas. O filho da mãe não tinha onde cair morto. A única coisa que foi capaz de lhe dar foi um cachorro e umas noites quentes. Nem emprego tinha direito. Não se sabe como ele tem se mantido nesses vinte dias. Mas ela não se importa com esta questão. Ela evita é conversar consigo sobre si mesma.
Dormiu, como de hábito. E sonhou que ele era um mendigo.
Escrito por Juliana Amado às 22:37 2 comentários
terça-feira, 23 de agosto de 2011
A não fuga
Ela sabia. Sabia que não podia ficar quieta. Mas ficou. E nem ao certo sabe porque. Porque? Hipóteses são só o que ela tem. Tinha pensado no bem estar do ambiente. Ela estava enraivecida. Não do algoz. Mas de si mesma. Não se conforma de ter ficado quieta.
De nada adianta pensar nisso agora, passará, tem de passar – ela pensa. Não de todo, para, de uma próxima vez, ter uma resposta na ponta da língua. E falar o que tem de ser dito. Colocar-se.
Mentalizando um tapa na sua própria cara, passou um batom vermelho, pegou a bolsa e foi embora.
No ônibus,conseguiu se sentar. Ela estava de sapatilhas, mas no estresse tudo dói, até pés de mulher fora do salto. Foi um alívio ter uma relativa sensação de descanso.
Olhando a paisagem urbana e alheia aos demais passageiros à sua volta, tentou pensar no filho pequeno em casa. Mas não conseguiu. Sua mente retornava à cena desagradável, por mais que fugisse dela.
O ônibus estava parado no trânsito tartarugeiro da cidade. Sim, ela gostava de neologismos às vezes. Rush. Lá fora e dentro dela.
Conflito entre diversos lados, pensamentos e ideias, cada qual com o ego lá em cima, disputando a predominância no cérebro. E no coração.
Fugia de si mesma e voltava. Como criança que foge de casa por cinco minutos.
Em casa, mergulhou no abraço do filho. Mas a mente ficou lá, horas antes.
Escrito por Juliana Amado às 00:11 0 comentários
sábado, 30 de julho de 2011
Cheguei! sem avisar
Numa tarde de julho, Aline estava em casa. Estudando para esses concursos da vida que volta e meia abrem. Creio que ela estava na parte da gramática. Toda concentrada.
Foi quando o telefone tocou e a Surpresa apareceu. Todo mundo sabe que a surpresa é um sujeito que sempre aparece sem avisar. Naquela tarde, entrou pela janela. Sem a menor cerimônia. Mas Aline não a viu. Correu para atender o telefone.
Quem estava lá, de pessoas a moscas e almas penadas, viu a cara de Aline. Estupefação. A negação no primeiro momento. Não se sabe se você notou, mas o ser humano quando fica surpreso, tende a negar no primeiro momento. Isso porque ele tem dificuldade de acreditar, mesmo que seja coisa boa. E Aline, sendo uma pessoa, tinha características genuinamente humanas.
E assim, ela custava a crer no que ouvia. Quando caiu a ficha, uma lágrima quase saiu dos olhos, indo na direção da força da gravidade. Mas ela se controlou. Ou, como diria os cariocas, segurou a onda. Como se ondas fossem grades.
Depois conversou como gente grande. Mas as faces denunciavam a presença de mais alguém naquela casa. A Surpresa que entrara sem alguém ver. Os presentes na casa a viram. Mas ninguém se importou.
Aline estava feliz.
Escrito por Juliana Amado às 21:17 1 comentários
domingo, 17 de julho de 2011
Pela janela do flerte
No meio da calçada. Entre o prédio e a rua. Caminhava ele. Sozinho. Com uma sacola na mão. Pressuponho que seja pão. Todo mundo compra pão na padaria da esquina às seis da tarde. E ele tinha cara de ser igual a todo mundo. Não me lembrava em nada o Do Contra da Turma da Mônica.
Eu também costumo comprar pão e andar ali neste horário. Mas hoje não fui. Tenho um prazer indescritível em quebrar rotina! Por isso, quando fui ao supermercado, comprei pizza de uma daquelas marcas famosas e coloquei no congelador. Hoje eu vou comer pizza. Pizza, vinho e filme. Uma agradabilíssima combinação. Romântica, quase sensual. Mas ainda era cedo e não me dera fome. Fui para a janela. Espionar o povo lá embaixo. Amo fazer isso. Apreciar o movimento dos transeuntes que nem percebem que estão sendo observados. Foi então que o vi. Ele. O vizinho. Não sei te dizer se é bonito, mas tem um charme só!
Ele é meu vizinho de porta desde que me mudei. Nunca trocamos mais que um "Bom dia". Sequer sei o nome dele. Não sei o que ele faz da vida. Só sei que ele me atrai - e muito.
Vi-lo entrar no prédio. Ficar na janela de repente perdeu o sentido. Fui então, ler um livro. Machado de Assis, creio. Iaiá Garcia.
Mais tarde, eu já tinha posto a pizza no forno, tinha passado das primeiras páginas, quando a campanhia tocou. Estranho. Eu não tinha visitas para receber hoje. Olho mágico serve para isso. Caí dura, quase. O vizinho. Batendo à minha porta. Literalmente. Abri.
- Desculpe, mas comprei pão e esqueci da manteiga. Você tem um pouco para me dar?
- Não tenho.
- Aqui está um cheiro bom!
- É a pizza.
- Adoro pizza.
- É grande, não vou conseguir comer tudo sozinha. Quer dividir comigo? Tenho também uma garrafa de vinho.
O desfecho é com vocês!
Escrito por Juliana Amado às 16:34 2 comentários

