A - Estou cansado.
B - É?
A - É!
B - Cansado de que?
A - Disso.
B - Disso o que?
A - Disso. Só disso.
B - Sou obrigado a adivinhar o que é disso?
A - Ah, achei que soubesse.
B - Tenho cara de adivinho?
A - Não. Você tem a cara que a mistura do espermatozóide com o óvulo te deu.
B - Então?!
A - Achei que você era meu amigo.
B - E não sou?
A - Amigos se entendem.
B - E nós não nos entendemos?
A - Pelo jeito, não.
B - De onde você tirou isso?
A - Amigos não precisam de palavras.
B - Ah, não?
A - Não.
B - Precisam de que então?
A - Sintonia.
B - Sintonia é telepatia então?
A - Não.
B - É o que?
A - Sintonia. Apenas sintonia.
B - Desisto.
A - Desiste?
B - Desisto!
A - De mim?
B - Não.
A - De que?
B - De entender seu papo.
A - Ah, você não me entende.
B - Não, não entendo.
A - Achei que você fosse bom em interpretação de códigos.
B - Isso não é código.
A - Como não?
B - Não sendo.
A - Claro que é.
B - Pode ser uma tentativa. Mas não é propriamente um código.
A - Ah, ãhn.
B - Hum.
terça-feira, 22 de junho de 2010
Pseudo-Código
Escrito por Juliana Amado às 00:19 0 comentários
domingo, 13 de junho de 2010
Há 25 anos
Quando Otávio era criança, brincava de soltar pipa no telhado da avó. De bonzinho, não tinha nada. Passava cerol na pipa dos vizinhos. Era esperto. Sabia que deixava os meninos da vizinhança roxos de raiva. Mas ninguém se atreveria a mexer com o neto de d. Albertina.
A velha senhora era a benfeitora do bairro. Aquela que distribuía balinhas para as crianças e dava um pouco do seu arroz com feijão para quem tivesse fome. Como dar o troco no neto dela? É. O pequeno Otávio se aproveitava disso. Esperto que era. Ou burro?
Esqueceu-se ou não sabia que as pessoas têm limite. E de um dia para outro, num piscar de olhos, deixou de ser o queridinho da vovó.
Um fofoqueiro acabou com a festa.
- Otávio - a voz era dura - venha cá. Já!
O menino gelou. Sua avó nunca lhe dirigira assim. Teve o típico medo infantil. Correu para a cozinha.
- Vovó.
- Senta. - Ele obedeceu. - Muito bem. Pois pode começar.
- Começar o quê?
- A explicar.
- Explicar o que?
- O que você faz quando vem na minha casa?
- Visito a senhora, como seu bolo de cenoura, tomo banho, ouço suas historinhas, jogo dominó com Papolete, vejo TV.
- Para começar, esqueça Papolete. Ele não existe.
- Existe vovó. Eu vejo.
- Não se pode ver amigos imaginários, Otávio. Acho que você se esqueceu de uma coisa.
- O que?
- Você não solta pipa quando vem aqui?
- Ah, sim. Solto.
- O que mais?
-Nada.
- Tem certeza?
Otávio fez sim com a cabeça, olhos visivelmente assustados.
- E o cerol na pipa dos vizinhos?
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Vinte e cinco anos se passaram. Otávio não consegue se lembrar com precisão os detalhes que se seguiram à pergunta fatal da avó. Lembrava-se apenas do susto que o dominou.
Na época foi aterrorizante, Mas hoje era uma lembrança engraçada. Tinha vontade de rir de si mesmo, pelo quão idiota fora. E ria. Hoje era noite de autógrafo do seu livro. Eu e as pipas do vizinho.
Escrito por Juliana Amado às 21:49 0 comentários
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Presente
Andava pela rua e não via ninguém. Apenas o negrume da escuridão. A coruja não lhe fazia companhia. Nem os morcegos. Nem as estrelas, com quem costuma conversar. Ninguém. A lua? Ela também não estava lá.
Ele não sabia para onde ia. Nem onde estava. Não tinha como se orientar. Não havia placas. Mesmo que houvesse, como lê-las? Não tinha uma lanterna em mãos. Não via os possíveis caminhos a tomar. Andava, andava, sem se dar conta de que estava perdido.
Estava sozinho, completamente só. Não havia cor ali, a acompanhá-lo. O preto dominava. Igual a gene dominante de letra maiúscula.
Pisava no chão duro, sem folhas a farfalhar. O único som eram seus passos e sua respiração.
Começou a correr. Voar. Tinha pressa de chegar. Chegar aonde? Em algum lugar, no futuro.
Mas de que adiantará o futuro se esqueceu o livrinho de colorir e o lápis de cor no presente?
Escrito por Juliana Amado às 22:09 0 comentários
domingo, 16 de maio de 2010
Desmembrando a Pintura
Textura,
volumes,
cores,
pinceladas.
Ideias,
perspectivas,
temas,
críticas.
Suporte,
telas,
tintas,
verniz.
Têmpera,
óleo,
aquarela,
guache.
Pontos,
linhas,
figuras,
formas.
Abstração,
figuração.
Academicismo,
vanguarda.
Acadêmico,
vanguardista.
Pintor,
artista.
Obra,
quadro.
Valor comercial,
valor expositivo.
Objeto de consumo,
acervo.
Arte,
arte.
A arte de pintar.
Escrito por Juliana Amado às 23:33 1 comentários
domingo, 9 de maio de 2010
Robson Crusoé
Robson mora no campo,
entre vaquinhas e patinhos,
trabalha alimentando os bichinhos
e gosta de ler,
nas horas vagas,
a história de Robinson Crusoé.
Ganhou o livro
de presente
da tia da escola.
Lê e alimenta,
alimenta e lê.
Faça o tempo que fizer,
sob sol ou chuva,
sobre o verde e o marrom,
lê e alimenta,
alimenta e lê.
Só, sozinho,
sem amigos,
sem companhia,
além da natureza
e dos bichinhos.
Só,
sozinho,
a solidão faz-se presente.
Que nem
Robinson Crusoé.
Um náufrago da vida,
Robson o é.
Um sobrevivente da solidão,
Robson o é.
Atemporal
alguns personagens o são.
Talvez Defoe não soubesse,
mas Robinson é atemporal.
E Robson também.
Solidão é naufrágio.
Solitário é náufrago.
Mar, mar.
Que mar?
Naufrágios em terra firme
existem.
Há náufragos
que vêem o verde,
ao invés do azul.
Robson é um deles.
Naufragou na zona rural,
entre vaquinhas e patinhos,
trabalhando com a pança dos bichinhos.
Não morreu afogado,
encontrou uma jangada,
encontrou a história
de Robinson Crusoé.
Escrito por Juliana Amado às 21:15 0 comentários
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Um Sapato no Caminho
Encontrei um sapato no meio do caminho.
Drummond encontrou uma pedra. Eu, um sapato. Novo. Novinho em folha. Numa posição em que não parecia ter sido perdido. Aparentava ter sido colocado ali. Era um sapato diferente. Era de acrílico azul-turquesa. Daqueles que seria bem polêmico: horroroso para alguns, estupendo para outros. Minha curiosidade foi aguçada.
Abaixei-me. Ajoelhei-me. Era uma rua de bairro de periferia. Uma rua não asfaltada, de terra batida, sem calçada. Quase uma roça. Sujei minha saia longa estampada. Não tinha problema. A descoberta valia mais. A saia, depois sabão em pó resolveria.
Olhei para o sapato de perto. Parecia feito para criança brincar de Cinderela no Carnaval. Mas era grande para os pés infantis. Tamanho 38 ou 39, acho. Devo ter ficado uns vinte minutos ali, na mesma posição. Sorte minha a rua estar deserta. Do contrário, estaria agora numa camisa-de-força.
Depois de tanto hesitar, encostei primeiro o dedo indicador naquele objeto azulão-transparente. Depois, o médio. Depois, o anelar. Daí, meti a mão. Uma, depois outra. Peguei o sapato com as duas mãos. Vagarosamente. Inconscientemente, talvez eu estivesse com medo de quebrá-lo. Lindo e feio aquele sapato, ao mesmo tempo. Como quebrá-lo-ia?
Trouxe-o um pouco abaixo da linha do queixo. Mirei de mais perto. Não encontrei arranhão à primeira vista. Resolvi procurar. Não encontrei. Nenhuma partezinha arranhada. O sapato estava inteiro, apesar de estar sem Pé Direito, sua esposa.
Não encontrei arranhão, mas um papel colado na sola de Pé Esquerdo. Era como se ele estivesse me entregando um bilhete. Eu sentia isso. Era para mim, o recado. Li.
O medo tomou conta de mim. Meu corpo ficou gelado. Não sei se meu coração parou ou acelerou. Saí correndo, deixando o sapato cair.
Não olhei para trás para ver se tinha quebrado ou não.
E...
E...
E?
Não me atrevo a contar o resto da história.
Escrito por Juliana Amado às 16:46 4 comentários
domingo, 11 de abril de 2010
Fora de mim
Onde estou? Para onde fui? Onde estive? Que caminho tomei? Ou teria eu usado pó de pirlimpipim? Seria eu sonâmbula e fugi enquanto dormia?
Olho ao redor. Não reconheço nada. Nenhuma parte do meu pequenino corpo. Nenhum membro. Nenhum órgão vital.
Não me encontro. Não me vejo. Não estou perto de mim. Onde estarei? Onde estará meu corpo? Onde está o fio que nos une, que nos mantém em sintonia? Não o vejo.
Perdi o contato comigo mesma. Meu espírito (mente + coração) se desprendeu do meu corpo. Não morri. Estou fora de sintonia. Estou perdida. Não me encontro em lugar nenhum.
Fora de mim, sou um peixe fora d´água. Eu sou o meu aquário, os meus brônquios, o meu oxigênio. Eu dou vida a mim.
Que hei de fazer agora? Sem rumo, sem direção? Na esperança de um dia encontrar o caminho certo de volta a mim?
Parecendo um zumbi, parecendo um fantasminha, aí eu vou. Vou 'praonde' ?
Para algum lugar, algum lugar por aí. Não sei onde fica o 'aonde'. Talvez eu consiga um mapa. Um mapa que me oriente. Se for possível eu me orientar.
Oh! Não sei de nada! Não sei mais a quem pertenço, de onde faço parte.
Só sei que estou fora de mim!
Escrito por Juliana Amado às 20:33 1 comentários

