domingo, 26 de setembro de 2010

Primavera no Cinema


Dias, meses e anos se passaram, sem que eu me desse conta que de as primaveras iam e vinham. Num piscar de olhos. Naquele dia, dez anos atrás, eu era uma menina de 14 anos. A enfrentar uma perda. Talvez a primeira grande perda da vida. Entendi a dimensão daquilo, mas a maior naturalidade já vista diante de uma morte estava ali. Talvez pelo um ano de certeza de que uma vida se esvaía. Talvez pela crença de uma vida além-túmulo. Pode ter sido estranho naquele momento. Mas a gente vai acostumando. Aos poucos. E nem percebe que se acostumou.

Na última primavera da década, do século e milênio passados, um ser fechou os olhos pela última vez. Não antes de dirigir as últimas palavras de amor a quem amava. Não antes deixar belas lembranças de uma infância feliz na mente de quem cá ficou. Não antes ter plantado a semente da honestidade. Não antes ter ensinado a filha a andar de bicicleta. Não antes de ter dado aulinhas de inglês em casa antes das provas.

Estamos diante de mais uma última primavera de uma década. E me dou conta que de o tempo passou. Dez anos. Redondos. Estranho. Não parece que passou tanto tempo assim. Algumas lembranças são atemporais e o tempo cronológico não acompanha. Me dei conta de que sou uma mulher. E que o ser que respirou pela última vez naquela primavera não conhece. Tudo mudou. O roteiro do filme agora é outro. Parece que mudou de autor. Os personagens que sobraram sofreram mutações no decorrer da história. Talvez o "ser-personagem" não se encaixasse mais como uma obra viva. É agora um personagem atuante nos sonhos, nas lembranças, nas saudades. Aparece em feed-back, em cenas bonitas.

A mensagem do filme é: No meio das flores "a saudade é a presença do ausente".

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Salomão

Cinquenta e três anos. Essa é a idade de Salomão, um pintor de parede. casado e com um filho adolescente, Salomão é um semi-analfabeto. Cursou até a primeira série primária na Paraíba, sua terra natal. Se mudou para o subúrbio do Rio de Janeiro com doze anos, onde continuou a ajudar o pai na tarefa rotineira de pintar paredes.
A vida inteira Salomão fez a mesma coisa. Mudava as casas, as cores, mas o serviço era sempre o mesmo. Porém, ele não se importa. Gosta do que faz. Acha gratificante pegar um cômodo feio e transformá-lo em algo novo, e muitas vezes, até em algo com estilo. É bom também ver o sorriso do cliente, com a casa ou local de trabalho renovados.
O dinheiro é pouco, mas dá para pagar todas as continhas, Nada lhe sobra, mas também não falta. Problemas com clientes? Acontecem. Mas isso é café pequeno. Problema, para Salomão, quem os tem é quem sente fome e não tem um teto a abrigar. Assim, o pintor é privilegiado. Tem casa, comida e roupas novas quando precisa.
Sente saudade da Paraíba, mas não muito. Faz tempo que saiu de lá e nunca mais voltou. E as pessoas que lhe eram preciosas - os pais, os irmãos e a avó - foram todas para o Rio de Janeiro com ele. O nordeste ficava agora num passado distante. Bonito, memorável, porque foi lá que passou a infância e os anos de brincadeiras inocentes, mas distante.
Hoje acordou cedo, como todos os dias. Tomou café da manhã reforçado. Café com leite, pão-tatu, ovo mexido, torrada com geleia. Pegou uma combi e foi trabalhar. Era o último dia no apartamento do Leme.
Ao entardecer, concluiu o serviço com fone de Mp3 ainda pendurado nos ouvidos. Sorriu. Mais uma missão cumprida. Mais um dia vivido.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Madá, a artista

Maria Madalena. Esse é meu nome. Alguns me chamam de Madá. Apenas Madá. Prefiro assim, aliás. É o jeito de não correr o risco de me reportarem à Bíblia e não ouvir piadinhas sem graça.
Sou hippie. Ou queria ser. Não sei se é possível ser hippie hoje em dia. Não existem mais as aldeias dos anos 60 e 70. O mundo ficou liberal e o jovem, conservador. Contraditória essa afirmação, mas verdadeira. Posso apenas dizer que minha indumentaria é hippie, que acendo incenso e acredito nas fases da lua. Tomo suco de clorofila pela manhã, sou vegan, uso brincos compridos e minha casa é cheia de samambaias e chifres-de-veado. E procuro viver. Viver, de verdade, no sentido amplo da palavra.
Existir é muito simples. Nasceu, tem um coração batendo, existe. Existir, todos o sabem. Mas e viver, quem o sabe? A vida é a consciência do Carpe Diem. Saber aproveitar cada momento, sentir-se você mesmo, sentir o sangue pulsar nas veias de emoção, apreciar as pequenas coisas, ter tempo para você mesmo. Eu sei fazer isso. O que não quer dizer que consiga sempre.
Esse ano ainda não vivi. Estamos em agosto e até agora o ano passou por mim, simplesmente. Não sei quando foi maio. Nada marcou. Não toquei meu violão, não pintei um quadrinho, não fiz um desenho, quase não vi filmes interessantes com uma tigela de pipocas amanteigadas nas mãos. Não apreciei o sol, tampouco a lua. Não ouvi o barulho do mar, mesmo morando na costa. Não vi crianças brincando no parquinho, correndo esbaforidas. Não cresci com minhas plantinhas.
Perdi esses meses todos. Perdi existindo, apenas. Dormia, acordava, trabalhava, dormia. Tudo rotineiro e entendiante.
Está na hora de mudar tudo. Voltar a ser a Madá. Madá, a artista. Aquela que vive de arte e da arte. Voltar a pintar para magnatas exporem em suas paredes luxuosas no Alto Leblon. Voltar a tocar violão nos botequins de Copacabana. Voltar a escrever para alguma editora. Sim, não sou artista de uma arte só. Voltarei a dar aulas de yoga. Voltarei a ficar zen.
Agora sim, sou a Madá de novo.

Depoimento de uma personagem: Maria Madalena, agosto 2010.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Resgate Tardio

O sorriso habitual não estava no meu rosto quando me olhei no espelho. Meus lábios pendiam para baixo e meus olhos estavam vermelhos.
Mandei meu amigo Carpe Diem pastar. Não tinha como encará-lo agora. O mar não era mais azul. Era preto.
A dor chegou para se hospedar dentro de mim. Escovei os dentes logo após uma refeição. Olhei pela janela do banheiro. Com o hálito fresco do creme dental, vendo os carros passarem pela minha rua, chorei.
Vivo numa ilha deserta. Por mais que tenha peixes, pássaros lindos, eles não falam comigo. Me ignoram. Não me veem. É como se eu não existisse. Falar com a árvore? Ela também é adepta do silêncio. Sinto-me tão só, atrás de uma grade imaginário, sem poder fugir para um mundo onde exista gente de verdade. Mas não tenho como fazê-lo. O mar é cheio de armadilhas. Só posso esperar o navio de resgate. E o navio tarda. Como tarda!
Lavei o rosto, retirei a maquiagem. Penteei meus cabelos, coloquei um pijaminha, deitei na cama. Não consegui dormir. Com lágrimas nos olhos, ainda aguardava o navio.
Talvez seja melhor acender uma fogueira, fazer sinal de fumaça. Talvez alguém me veja. Talvez alguém me ache.

domingo, 29 de agosto de 2010

Hora de Almoço

Meio dia e treze. Era o que o relógio digital no pulso dela marcava. devia estar certo; ela era daquelas que ligava para o 130 e verificava até os segundos.
Neurose? Talvez. Idiossincrasia? Com certeza. Mas isso pouco importa. Não faz diferença num simples relato cotidiano.
Clara estava no seu horário de almoço. Tinha acabado de fazer uma refeição rápida. Algumas folhas, filé de salmão ao molho de alcaparras, suco de acerola. Com o estômago satisfeito, estava agora dentro de uma igreja. Qual, ela não saberia dizer. Não era importante. O que fazia diferença era que Clara conversava com Deus. Em silêncio, usando o mental, mas conversava. Punha em prática a sua fé. E a sua pequenez, ao se dirigir a algum ser superior sem poder vê-lo, tampouco saber como Ele é.
Mas Clara não ligava para isso. Com a roupa elegante do trabalho e sapatos de bico, desnudava-se. Espiritualmente falando, claro. Conversava, implorava, pedia orientação, agradecia. Transparente e translúcida, jogava-se nos braços de Deus.
O curioso é que ninguém via a beleza da cena. Quem imaginaria que Clara, com sua cara e indumentária de executiva tinha fé?
Não, ela não é católica. Não tem uma religião definida. Acha que religiões são rótulos. Ela apenas gosta de conversar com Deus. Em qualquer lugar silencioso e propício à oração.
Sente-se mais leve agora. Com a alma lavada e despida de impurezas. Olha para o relógio. 12:33. Hora de sair. Correndo. De volta ao trabalho.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Apocalipse de Freud

O mar invadiu a terra,
meteoros caíram aos montes,
ventos de sei lá quantos quilômetros passaram voando.
as montanhas se ruíram,
houve tempestade de areia no deserto,
o marrom do globo terrestre desapareceu,
a peste negra voltou,
os monumentos turísticos desabaram.
É o fim.
É o Apocalipse.
Não aquele que está na Bíblia.
Um fim do mundo
que talvez Freud entendesse.
Um turbilhão invadiu meus sentimentos.
Eu começo a ruir,
pouco a pouco.
Está escuro,
o sol foi embora.
Não vejo para onde rolam minhas pedras.
Vou andando devagar,
devagarinho.
E descubro que lá,
lá longe tem uma nesga de luz.
O sol não foi embora,
o Apocalipse tem um fim.
É o fio da esperança.

sábado, 10 de julho de 2010

Arco- Íris

Abri a janela. Deixei a luz entrar depois de uma longa noite de chuva. O sol fraco da manhã iluminou meu rosto, banhando-me. Abri os olhos.
Lá estava o arco-íris. Esperando-me. Chamando-me. Sorrindo para mim. Coloquei meus dentes à mostra, feliz. Os passarinhos cantavam. Corri, tirei a camisola, vesti um vestidinho leve.
Pulei a janela. O arco- íris me estendia os braços. Agarrei-o. Montada em cima dele, corri, naveguei, brinquei de tobogã e de balanço no mundo das cores.
Virei criança outra vez. A inocência permeava meu espírito. A felicidade irradiava de minh´alma, assim como a luz do sol. Me sentia flutuar, leve, levinha, leve como uma pluma.
O céu estava azul bebê, sem nuvens. O mar no mundo das cores era rosa. Tinha passarinhos azuis, verdes e laranjas. As borboletas eram lilás. As coisas tinham as cores que eu queria, que eu imaginava. Pintei as rosas de vermelho e as margaridas de amarelo. As árvores tinham troncos marrons e folhas que alternavam o esverdeado e o arroxeado.
O mundo no arco íris era colorido, colorido como nos desenhos animados para menininhas. Colorido do jeito que eu queria.
E o odor? Tinha cheiro de lavanda. Suave. Como meu eu interior se encontrava naquele momento.
Um lugar de liberdade! Onde eu podia ser eu mesma. Sem críticas alheias, sem preocupação com as convenções sociais. Lá eu podia gritar, correr, pular, cantarolar. Cheirar as flores, conversar com as borboletas, subir nas árvores. Dar vazão à minha alegria, à minha felicidade. Deixar transbordar tudo que bom que eu sentia. Deitar, rolar na grama. Nadar, fazer piruetas no mar.
Pintar o mundo, colorir a mim mesma.
Colorir, colorir. Eu estava no arco-íris.

©2007 '' Por Elke di Barros