quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Preste Atenção

Olha!
Olha!
Tem alguém
lá na frente
falando!
Há quanto tempo?
Só sei que não posso mais
contar os minutos
nos meus dedos.
Como fala!
Coisas interessantes,
mas que eu já sei.
Olha!
A pessoa está falando!
Preste atenção
assim mesmo.
Finja.
Um super interesse.
É importante.
Olha!
Olha!
Tem alguém
lá na frente
falando!
Discursando.
Olha!
Preste atenção.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Ovo Cozido

Quando você voltar, acendo o fogão. Coloco uma panela cheia d´água e dois ovos. Mas agora não farei isso. Se você demorar, o ovo esfria, daí ouvirei reclamações. E não estou a fim de ouvi-las.
Farei qualquer coisa agora. Qualquer coisa menos colocar o ovo para cozinhar. Talvez termine de ler aquele livro. Talvez borde uma toalha para Pedro. Ver um seriado na TV fechada também é uma opção.
Não sei porque estou aqui falando as opções. Não faz diferença. Você vai lá pra fora fazer sabe-se-lá o quê, sequer verá o que estou fazendo. A única coisa que você deve saber é que não vou cozinhar budega de ovo algum agora.
Agora vá! Vaza! Quando você voltar, acendo o fogão.

domingo, 28 de novembro de 2010

Caminho do Corredor

O corredor estava escuro e úmido. Era lamentável que não houvesse outro caminho. Tentei adaptar meus olhos à escuridão. Passei a enxergar alguma coisa e conseguia ver onde havia poças d´água. Menos mal.
Embora não fosse tão forte a ponto de paralisar, o medo estava ali. Aqui. Dentro de mim. E assim eu caminhava, receosa.
Sabia o que encontraria no final. O problema era o caminho. O que encontraria no decorrer daquele corredor. Não sabia que tipos de fantasmas ali habitavam. Nem o que tinha dentro daquelas poças. Nem o que poderia sair de dentro das portas laterais. Não sabia quanto tempo levaria para chegar ao final. Segundos? Minutos?
Haveria ventos sussurrantes em cada curva? Algum esqueleto ambulante? Ou Peter Pan apareceria onde o vento faz a curva e me levaria para a Terra do Nunca? Talvez não fosse uma má opção. Terra do Nunca. Às vezes eu gostaria de ser criança outra vez e sê-lo para todo o sempre. Mas não. Peter Pan não aparecerá. As flores estão no destino.
O caminho é feito de pedras e vidros quebrados e pontiagudos.
Parei com meus devaneios. Olhei em frente. E dei o primeiro passo.

domingo, 7 de novembro de 2010

Meu mundo de hoje

Quando eu era criança
brincava de Barbie,
andava a cavalo,
dava cambalhotas na piscina,
dava colo a cachorrinhos,
subia em árvores.
E não visitava museus.
Quase não me levavam ao cinema.
Não tinha desenhos em VHS.
Nunca tinha lido Ruth Rocha.
A cultura estava do outro lado do mundo,
onde eu não enxergava,
não estava no meu cotidiano.
E assim,
o tempo foi passando,
eu, crescendo,
desnudando-me,
descobrindo-me.
Enxerguei o que não via antes,
apresentei-me a quem não havia sido apresentada.
Conheci a cultura,
conheci a literatura,
conheci a arte,
conheci os museus.
Formei então
meu círculo de amigos:
os cults,
os intelectuais,
os literatos,
os artistas,
os museólogos.
Reconstruí meu habitat
num outro mundo,
que me permita ser
eu,
uma eterna aprendiz.
Um mundo
de criatividade,
cuidado,
loucos,
obras,
criação!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Pasárgada

Sabe de uma coisa? Quintana estava coberto de razão. Quando foi embora para Pasárgada. Lá ele era amigo do rei. Lá ele escolhia a cama que queria.
Vou fazer igual. Quero ir-me embora para Pasárgada. Quero também ser amiga do rei. Mas onde fica Pasárgada? A quantas milhas de distância? Que veículo tomar? Uma barca? Um trem? Um ônibus? Um avião? Em que direção? Norte, sul, leste, oeste?
Eu podia perguntar ao Quintana. Se ele ainda estivesse vivo. Grande Mário! Soube encontrar seu caminho. Caminho esse que não encontro agora. É. Estou impotente. Não sei onde fica Pasárgada, não sei chegar lá. Não sei o que fazer.
Como contatar o rei "amigo"? Como chegar a ele e pedir uma passagem só de ida? Como pedir uma caminha confortável?
Como? Como? Como?
Ah, quero ir-me embora para Pasárgada!

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A consciência do não existir

Distante. A não sei quantas mil léguas. No mundo da lua. Num lugar onde ninguém me encontra. Onde ninguém lembra que eu existo.
Meu nome não sai publicado em lugar algum. Para quê? Eu não existo. Talvez tenha morrido. Talvez nunca tenha nascido. Talvez meu nome seja apenas fruto de uma imaginação.
A prova, as notas, os exames médicos, a perícia. Tudo isso não passou de um sonho. Um sonho irreal. E eu, tola, lá do mundo da lua, acreditando que era verdade. Tolice! Como é que fui acreditar num sonho que nada mais é que um quadro de Salvador Dalí ou uma fotomontagem de Francisco Aszmann? Burra que sou!
Moro muito longe. Num lugar que para você chegar tem que atravessar o portão da inexistência.
Aqui, no meio do nada, tento fazer alguma coisa. Estudar. Não me concentro. Minha mente é como um caldeirão em ebulição. Ferve. Com bolhas grossas. Que se misturam ao salgado das minhas lágrimas. Estudar não dá. Vou pintar. Cores. Apenas cores. Figuras não definidas. Não-figuras. Formas apenas. Formas indefiníveis. Em cores sem regra. Com lápis aquarelável. Adianta um pouco. Os nervos dão uma esfriada. Leio. Um romance pseudo-autobiográfico fictício. Confuso? Mas é isso mesmo. Segundo o autor, "tudo isso aconteceu mais ou menos". Um pouco de ficção, um pouco de fatos reais. Desligo-me da minha não existência. Distraio. Escrevo. Uma crônica, uma poesia e um romance. Lembro de novo do meu estado. Choro. Escondido. No banheiro. Quero existir!
Vou procurar meu nome nas certidões de nascimento nos cartórios.
Não falo, não desabafo com quase ninguém. Estou no mundo da lua. Lugar intangível. Não sou encontrada nem encontro alguém. Não converso. Salvo com alguém que também não exista e não tenha carteira de identidade expedida pelo DETRAN ou IFP. E assim (des)curto sozinha a minha não existência.
Quero voltar para o mundo real. Se é que algum dia já fiz parte dele. Quero ter uma certidão de nascimento, uma identidade. Quero ter feito aquela prova, aqueles exames médicos, aquela perícia. Quero meu nome publicado na Imprensa Oficial da União. Só quero ser lembrada! Só quero existir!

domingo, 3 de outubro de 2010

Frango e Submarino


Certa vez conheci um menino,
num ano não muito longíguo,
tão logo tinha passado a adolescência.
Um menino
que gostava de frango-
o bicho, não a comida -
e que tinha um apelido atípico.
Um excêntrico engraçado,
com quem vim a me acostumar
ao longo do tempo,
num ambiente de loucos,
nem sempre divertido,
Aos poucos fiz descobertas,
vi quem era o menino
que gostava de frangos -
de pelúcia, diga-se de passagem.
Ficamos amigos,
além do ambiente de malucos-nem-sempre-beleza.
Tenho nele
alguém em quem posso confiar,
Como confiar
num menino que gosta de frangos?
Amizade
vai além de idiossincrassia.
Ele era um Porto seguro
que se transformou
num submarino,
que agora afunda
para tomar seu rumo.
Rumo ao sucesso,
à felicidade,
à realização.
Mas as marcas d´água
hão de ficar.
O submarino
está indo embora,
Embora entre aspas.
Estará longe,
no fundo do mar,
mas não há nada
que me impeça de alcançá-lo,
tenho pés-de-pato
embaixo da minha cama.
E a Deus agradeço
o rumo que todos nós
estamos tomando.
Um dia,
talvez um pouco mais longíguo,
olharei a estrada do mar.
verei a glória dos peixinhos coloridos,
e dar-me-ei conta,
do quanto tudo valeu a pena!


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Ry, amigo querido! Vá... e seja muito feliz "nas Minas do Rei".

©2007 '' Por Elke di Barros