Vento forte, pingos grossos. Ela olhava a chuva através da janela de seu pequeno apartamento. Olhava, mas não via. Seu pensamento estava muito longe para se dar conta da beleza do aguaceiro que caía do céu.
E ela também era do tipo que não percebia a beleza da natureza, ela não conhecia o carpe diem. Era do tipo de pessoa que existia ao invés de viver. Raros eram os momentos em que se permitia viver o presente. Raríssimos.
Naquele momento, ela pensava no trabalho. Aliás, sua vida se resumia a isso: às coisas práticas como acordar, levantar, comer, tomar banho, trabalhar, pagar as contas, dormir. E assim ela seguia sua vida rotineira e robótica.
Tudo era o prático. Não havia espaço para o sentimento. Talvez até houvesse, mas ela havia fechado as portas para aquilo que não fosse tão objetivo.
Os dias iam passando. Um após outro. Todos iguais. E ela não se cansava. Para falar a verdade, até gostava da monotonia, sentia-se confortável assim. Afinal, existir era mais fácil que viver.
Aquele dia era um domingo. Seu dia de folga e o mais temido da semana. Era o dia de fugir da rotina, coisa que ela não sabia fazer. Geralmente visitava os parentes apáticos num bairro distante. Mas em dia de chuva lá enchia, e ela tinha que ficar em casa. Não, não tinha. Ela podia sair, ir ao cinema que ficava a uma quadra do apartamento. Mas ela escolhia a clausura. E olhava a janela, sem nada ver. Se passasse um beija-flor como acontecia de vez em quando, ela nem notaria. À sua frente, em vez do vento forte e dos pingos grossos, ela via as imagens do seu dia-a-dia. A imagem do óbvio, da rotina.
Ela era um robô. Parecia programada para ver apenas a rotina.
E assim ela morreu. O coração parou quando ela estava debruçada na janela, pensando na vida robótica. O vento estava forte e a chuva caía em pingos grossos.
terça-feira, 26 de maio de 2009
Último dia
Escrito por Juliana Amado às 23:57 1 comentários
domingo, 17 de maio de 2009
Oco
O oco
da árvore.
O oco
do coco.
O oco
da colméia.
O oco,
o vazio,
o oco.
O espaço
interno.
O oco
da alma.
Escrito por Juliana Amado às 23:26 1 comentários
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Cor
As cores.
As cores do mundo. As cores compõem o mundo e as coisas que fazem parte dele.
Catarina pensava nisso. Nas cores. Ela tinha a pele branca, o cabelo preto e os olhos cinza. Como numa imagem em preto e branco, mas ainda assim, eram cores. Talvez uma cor sem cor, mas não deixavam de ser cores.
Para quebrar o preto e branco havia um detalhe em sua roupa. A calça era preta, o tênis e a camiseta eram brancos. Mas ela usava um colar. Vermelho.
Essa imagem de Catarina tinha fundo. Desfocado, priorizando a figura humana, mas não deixava de ser um fundo. Tinha cores da escala cinza dos prédios antigos e abandonados, mas tinha também casas coloridas em azul-índigo ou amarelo-gema.
A imagem ao fundo alegrava as cores sem vida de Catarina.
As cores eram o sentido daquela foto. Elas tinham um significado no contexto e por si só. E a figura de Catarina sozinha não dizia nada.
O sentido é a cor.
O palpável é a cor.
O significado é a cor.
A lógica é a cor.
A razão é a cor.
O sentimento é a cor.
A cor é tudo. E tudo é cor.
E Catarina sabia disso. Não é de se espantar que só tirasse fotos onde houvesse um fundo que tivesse a cor que continha o significado que ela queria.
Ao olhar pela janela, ela sabia o que a vista lá fora queria dizer. Captava as cores com seus significados e decifrava o código. A imagem não era a mesma todos os dias. Uma folha roxa caída no chão ou um pássaro verde a voar faziam toda a diferença na mensagem final. Afinal, eles eram uma cor a mais, um significado a mais (ou a menos).
E assim, Catarina trabalhava as cores em sua tela. Usando a escala cinza para os "sem-sentido", como ela própria era e envolvendo-o com o colorido do significado que pretendia dar. Às vezes Catarina não pensava em dar significado nenhum. Cabe ao espectador fazer a própria leitura das cores à sua frente.
O sentido é a cor.
O palpável é a cor.
O significado é a cor.
A lógica é a cor.
A razão é a cor.
O sentimento é a cor.
A cor é tudo. E tudo é cor.
Escrito por Juliana Amado às 23:34 1 comentários
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Metáforas
Azul,
verde,
vermelho,
laranja,
lilás,
dourado,
branco.
Cores.
Sentimentos.
Equivalências, representações.
Ligue os pontos,
as cores,
os sentimentos.
Serenidade,
esperança,
raiva,
alegria,
sono,
luz,
paz.
Escrito por Juliana Amado às 23:25 1 comentários
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